1 de agosto de 2007

O Surrealismo Linguístico

Em umas das Disciplinas Acadêmicas que estou cursando, um assunto me chamou muita a atenção. Trata-se da Sociolinguística. É um estudo social da língua.
Fiz um comentário baseado na leitura de textos referentes a esse assunto, e estou publicando aqui.
O texto contem alguns termos técnicos, mas esses termos podem ser encontrados facilmente em algum livro que trate desse assunto. Recomendo, como autor, Marcos Bagno, e um dos seus livros Preconceito linguístico


Parte I
A adoção de gramáticas normativas é um sintoma de que pouco se preocupa em analisar efetivamente em uma língua, mas, antes, em transmitir uma ideologia lingüística. Se considerarmos que aquelas gramáticas adotam uma definição de língua extremamente limitada, que expõem aos estudantes um modelo bastante arcaico e distante da experiência vivida, mais do que ensinar uma língua, o que elas conseguem é aprofundar a consciência da própria incapacidade por parte dos alunos.


Comentário: É evidente e perceptível que não falamos aquilo que aprendemos na escola. Parece existir dois mundos, o mundo onde existe a interação social através da linguagem, e o mundo onde está uma língua (se é que essa nomenclatura é válida) normativa (até mesmo esse conceito de "norma" tem um carácter jurídico, de imposição).
Essa língua normativa, conhecida como norma-padrão, tem um poder de imposição, pois não é praticada nas interações sociais orais, e na grande maioria das vezes, também não são praticadas na escrita. Sendo ela limitada a um pequeno grupo social. Mas mesmo esse grupo não a utiliza puramente. Essa língua se torna descontextualizada e artificial, uma espécie de surrealismo lingüístico.
A norma-culta separa a sociedade em pólos sociais extremamente contrários. Desde a criação da gramática normativa, pode-se notar a busca pelo distanciamento social através da linguagem. Uma tentativa de conter a variação da língua. Essa variação é inevitável, pois elas acontecem devido a língua ser um fato social, feito por pessoas heterogêneas.
A heterogeneidade social, onde não há uma uniformidade, também se reflete na língua, culminando numa heterogeneidade lingüística. Mas essa heterogeneidade é ordenada, seja pelo condicionamento lingüístico, onde a variação ocorre devido a formação lingüística, ou pelo condicionamento extralingüístico, ou seja, por um fator social.
Dentro desse contexto percebe-se que existe uma espécie de ideologia lingüística . Uma clara tentativa de criar uma barreira social através da língua, sendo ela uma ferramenta de mobilidade social. Ao meu ponto de vista, esse bloqueio se firmou no inconsciente coletivo e está intimamente relacionada a uma prática "natural".
O reflexo dessa ideologia lingüística na sociedade é visto quando tabus (criados pelos interlocutores da língua) afloram cotidianamente, tornando a língua algo incompreensível, difícil, complicado de se entender e, principalmente, excluidora. Dentro dessa ideologia ainda pode ser percebida uma nova classe social, a classe dos excluídos da linguagem pseudo-correta, fortemente bombardeados por preconceitos, pois "onde tem variação sempre tem avaliação".


Parte II
Sabemos que não é o erro, mas sim um status social do falante que conduz efetivamente ao preconceito. Mesmo que o ensino da norma-culta condene igualmente "nós vai" e "chame-me a atenção os desdobramentos", já quem em ambos os casos não se fez a concordância do sujeito com o verbo, é evidente que a primeira forma é mais estigmatizada , e isto porque não se conforma aos padrões da variedade lingüística dos falantes socialmente mais favorecidos.

Comentário: Existem variações lingüísticas mas favorecidas do que outras, esse favorecimento se torna aceitável quando são variedades prestigiadas, ou seja, da elite letrada da sociedade, como é no caso "chame-me a atenção os desdobramentos". As formas mais repudiadas são as variedades estigmatizas, sendo da parte mais desfavorecida de "letramento" da sociedade, como em "nós vai". Existem nomenclaturas diferentes para essas definições que variam de autor/a e pesquisador/a.
Fundamentada pela ideologia lingüística, a variação estigmatiza se torna um "erro", erro este mutável na relação tempo X espaço, pois variações consideradas como erro a algum tempo hoje se tornaram comuns a classe dominante. Isso porque toda variação lingüística começa na classe social mais baixa, e se incorpora a norma-culta, sendo essa variação aceita pela classe dominante.
Como foi visto, a norma-culta também varia, só que essa variação, por ser feita pela classe dominante, é aceita e passa muitas vezes despercebida pela própria classe dominante que criou o conceito de que só eles estão certos, e que quando se trata de uma variação da classe desfavorecida do letramento o "erro" soa "gritante".
Toda sociedade tem suas particularidades, conceitos, preconceitos, verdades, mitos, polaridades, etc., e isso também existe na língua. Como já foi dito, a língua é um fato social, e dotado de heterogeneidade e pluriculturalismo. Sendo ela reconhecida como um fator social, deve ser então tratada e abordada como tal, e não como um livro de normas intocáveis e incompreensíveis.