25 de setembro de 2007

Momento Sétima Arte


Há poucos dias assisti ao Filme Tropa de Elite, de José Padilha, que está em exibição no Festival de Cinema do Rio de Janeiro.

O filme é passado na cidade do Rio de Janeiro no ano de 1997, e conta a história de um capitão da BOP (Batalhão de Operações Especiais) a procura de seu substituto, onde, na história, ele se depara com dois recém formados Tenentes com uma visão honesta da Polícia Militar. Não entrarei em detalhes em relação ao desenrolar da história.

Quem assistiu ao Filme Cidade de Deus (uma história do bandido¹ de dentro para fora), e observou uma visão estereotipada do bandido bonzinho, perceberá em Tropa de Elite que a visão é contrária. É a visão do Policial Honesto.

A trama aborda temas como: corrupção, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha, organização social, trafico de drogas, entre outros do gênero. Citações de Foucault aparecem em determinados momentos, e até mesmo uma rápida análise do "Sistema".

A descrição que se faz da Polícia Militar levou o governo a tentativa de não deixar o filme ser exibido, pois para os policiais militares ele denigre a imagem da entidade.

É um filme que vale a pena ser assistido. Mas cuidado para não fixar demais a atenção as táticas e as armas, existe algo muito mias importante que a violência; A sociedade.






1 – O termo usado se refere a visão social que se tem do indivíduo que não cumpre a lei

15 de setembro de 2007

Individualismo: prós e contras


BREVE HISTÓRICO

O individualismo assumiu um papel de fundamental importância no desenvolvimento ocidental. O fato de o homem ter sua identidade, assumir um universo em si, fez com que a sua trajetória sofresse uma mudança drástica. Isso afetou não somente o próprio homem, mas o que dele se produz, a cultura.


O processo de individualização do indivíduo ganha forças com o Renascimento através do Humanismo, onde o homem retoma o lugar central das ações do próprio homem. Essa ruptura, com uma subordinação à igreja, faz com que floresça a doutrina ou teoria do liberalismo que colabora com o enfraquecimento do poder religioso culminando no nascimento dos Estados Modernos. Essa doutrina é fundamental para se compreender o desenvolvimento do individualismo numa relação macro. Dumont diz que “Com o predomínio do individualismo contra o holismo, o social nesse sentido foi substituído pelo jurídico, o político e, mais tarde, o econômico".


O surgimento dos Estados legais, a participação do povo através da representação legislativa, que num primeiro momento resume-se a classe burguesa, e, em seguida, a afirmação dessa classe e o fortalecimento do capitalismo, fomentam ainda mais o individualismo, que por sua vez influencia as relações sociais.


A Revolução Industrial inglesa e logo em seguida a Revolução Francesa são fatos que expõem essa nova visão do homem em relação a ele e a sociedade. A Revolução Francesa, com o lema liberdade, igualdade e fraternidade, mesmo que tenha sido uma revolução burguesa, influenciou definitivamente o conceito de igualdade entre os homens, e que esses mesmos homens têm direitos individuais, desconstruindo nesse ponto a idéia holista da Idade Média.
Seguindo a linha de raciocínio do materialismo histórico, a compreensão contextual do indivíduo na Idade Moderna é fundamental para analisar a conjuntura no mundo contemporâneo.



INDIVIDUALISMO X COLETIVISMO

As motivações individuais levam o homem a buscar a maximização dos ganhos e a minimização das perdas (não somente capital). Mas esse “lucro” nem sempre se repercute na esfera coletiva. O ganho individual não significa dizer ganho coletivo.


Se por um lado a busca pelo ganho individual valoriza mais o homem, por outro as relações coletivas se tornam cada vez mais frágeis. O que antes era de fácil percepção observar uma sociedade com grupos bem definidos, hoje se torna complexo distinguir grupos com características próprias. Esses grupos dão lugar a grupos menores, que se fragmentam e dão lugar a grupos menores ainda.


A classificação do indivíduo em “tribos” é um bom exemplo pra se perceber isso. No final da década de 50 e em toda década de 60 observa-se o surgimento de um estilo musical até então diferente dos padrões sociais existentes. O “Rock” muda completamente o jovem daquela época, principalmente em relação ao seu comportamento com o que lhe é passado pela família.


Nota-se uma fragmentação desse próprio estilo. Dele surgem outros estilos que já assumem características próprias, como o rock progressivo, rock experimental, psicodelismo (acid rock), garage rock, hard rock, punk rock, heavy metal, thrash metal, hardcore, grunge, pop rock, indie rock e chegando ao emocore.


Com o tempo há a necessidade de se individualizar, criando características próprias, estilos próprios e novos, e repercute em toda esfera coletiva.


INDIVÍDUO E ESTADO

O avanço e o desenvolvimento do individualismo mudaram e continuam mudando as relações dos Estados com os indivíduos. Ao passo que o indivíduo se vê como autônomo o reflexo dessa auto-visão repercute na esfera jurídica. O indivíduo jurídico passa a ser um dos objetivos do Direito, pois passam eles (indivíduos) a terem autonomia e independência em relação a outros e aproximam-se de uma ligação mais direta com o Estado. A relação micro x macro é mais constante.


Comparando países que estão historicamente num processo de individualismo mais avançados a outros menos avançados, percebe-se uma qualidade de vida mais elevada do que os países que estão num grau menor. Nota-se uma qualidade de vida melhor e um acesso maior aos benefícios que o Estado disponibiliza (essa qualidade se refere aos padrões que esses países individualizados pressupõem como idéias). Mas a face contrária dessa moeda é a “frieza” ou falta de sentimento com que as relações se dão. Não que sejam pessoas frias, mas o afastamento de uma coletividade interfere no grau com que esses indivíduos costumam se relacionar.


Outra relação entre esses países, como Weber observou, é a privatização do público. Em países mais individualizados as funções que cada pessoa realiza é muito em base da meritocracia, o que em países que ainda estão num nível menor de individualização não acontece. Sérgio Buarque de Holanda em O Homem Cordial expõe o tão famoso “jeitinho brasileiro”. Nesse sistema não se valoriza tanto a questão meritocrática, abrindo espaço para uma familiarização do Estado. Este sendo um estágio a ser passado pela modernização.


RELAÇÃO FAMILIAR

O reflexo do individualismo nas relações familiares é perceptível quando comparada a relações passadas e entre países. Existe cada vez mais uma independência dos indivíduos em relação à família de origem e um fortalecimento maior da família nuclear.


As ações se tornam independentes quando analisamos o comportamento dele (indivíduo) com a família. Ações, que antes, eram decididas com certo grau de interferência familiar, passam a ser tomadas numa visão de si próprio. Um exemplo claro disso é na escolha do curso superior. Muitas famílias no Brasil seguem uma tradição profissional que interfere na escolha individual, mas esse processo vem com o tempo sendo submetido a escolhas próprias, movidas por motivação própria.


É importante salientar que muitas dessas motivações se devem em detrimento a uma ideologia de status, algo que faz o individualismo se confundir com egoísmo.


O avanço da família nuclear deve-se, em parte, ao processo de independências dos indivíduos com suas respectivas famílias. Mas nota-se hoje uma fragmentação também dessa família nuclear, uma maior proporcionalidade da mobilidade social faz com que o afastamento desse núcleo familiar e desse global (chamarei uma a família mais ampla) ocorra de forma gradativamente acelerada.


Havendo uma insatisfação do indivíduo com sua família, atualmente é natural que ele vá em busca de uma realização que se enquadre nos padrões sociais de prestígio. Gilberto Velho diz “A mobilidade social, [...] pode, entre outros motivos, ser causadora por essa insatisfação.” (Individualismo e Cultura: Notas para uma antropologia da sociedade contemporânea. pág. 46).


INDIVÍDUO X INDIVÍDUO

E quando o indivíduo não consegue adaptar-se às mudanças decorrentes desse processo de individualização? O que acontece com ele? A independência em relação aos grupos faz do indivíduo objeto de ganho ou perda, ou seja, quem sofrerá as conseqüências de uma futura “derrota” ou “vitória”, dentro dos padrões individualistas, será o próprio indivíduo.


Comparando a organização social e o papel do servo na Idade Média com os indivíduos de hoje, nota-se uma relação infinitamente diferente. Dizer que na Idade Média um servo teria uma “crise de identidade” é algo incompreensível, pois, lá, o indivíduo (não como a concepção que se tem hoje, mas em relação à unidade do homem) confunde-se com o grupo ao qual ele faz parte.


Hoje a não inclusão dos padrões impostos pelo individualismo contribui para doenças que se tornam individuais, doenças que surgem do olhar individual, doenças psíquicas. Crises de identidade, transtornos obsessivos compulsivos, síndrome do pânico, etc., são um sintoma negativo desse processo de individualização. O indivíduo quando não consegue atingir padrões que o próprio individualismo impõe passa a entrar em choque com o próprio individualismo contido em si.


Nota-se que há uma preocupação em não afastar tanto os indivíduos do coletivo, pois sozinhos não conseguiriam sobreviver, mas também em não se interligar tanto ao ponto de que cada um perca a sua característica própria. A busca de um meio termo nessa dicotomia é ,e será, um passo importante para uma caminhada individualizada com base coletivista.