25 de dezembro de 2007

É o Natal, então

Não penso em fazer deste espaço um diário virtual, mas o que passei hoje foi diferente. Diferente a ponto que me vi obrigado a fazê-lo.
Não tenho experiência nisso, mas vamos lá...

Querido Diário,

Hoje é Natal querido Diário. Todo mundo diz ''feliz Natal!'' para as pessoas. Várias vezes já me perguntei quantos ''feliz Natal!'' são ditos neste dia na terrinha azul. Eu fiz uns cálculos aqui: digamos que existam 6 bilhões de pessoas no Mundo, e que destes levo em consideração os ocidentais cristãos. Será que a metade? Vou ficar com a metade então. 3 bilhoes. Destes 3 bilhões “natalizados”, eu retiro os anti-capitalistas, os descrentes e os correligionários opositores. Será que dá uns 100 milhões destes? Retiro também as crianças, os caducos e alguns com problemas mentais. Acho que sobram 2 bilhões. Será só isso? Talvez mais, talvez menos (Quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha?). Pois bem, destes 2 bilhões cada um fala no mínimo 100 vezes ''feliz Natal!'', isto levando em consideração todo o avanço tecnológico da informática e Internet. Resultam disto 200 bilhões de ''feliz Natal!'' neste dia. Algo estupendo! Mas não tem relação nenhuma com o que me aconteceu hoje. Era só curiosidade mesmo.

Pois vamos aos fatos.

Hoje fui ao banco logo pela manhã. Sai de casa por volta das 9h em direção a parada de ônibus. De longe avistei um Sr com um paletó preto e um chapéu. Quando me aproximei reparai melhor na roupa dele. Paletó e calças pretas, ambos com pequenas listra brancas na vertical, e uma camisa branca. O que mais chamou atenção foi o que aconteceu logo em seguida.
Na parada estavam algumas pessoas. Acho que 8 no máximo. Uma Sra vendendo doces, algumas crianças com uma mulher, um casal jovem e uma outra jovem.
Então o Sr, aparentando ter mais de 80 anos, começou a cantarolar uma música que não conheço. Ele cantarolava e brincava com as crianças. No mesmo instante vi que ele as conhecia. Então ele se dirigiu, ainda cantarolando, ao casal que estava a minha frente, cantou uma parte que era parecido com isto: ''vou vagando pelo mundo atrás de um amor''. De imediato ele parou e disse:

- Ah, hoje já não posso mais procurar. Já estou viúvo.

Não entendi muito bem, mas ele prosseguiu.

- A gente tem tudo e ainda assim reclamamos.

Ele olhou para mim e disse:

- Não é?!

E eu:

- É... (Vou contrariar?).

No outro lado da rua tinha um homem de muletas. Ele Não tinha parte de uma das perna. O Sr olhou para ele e nos disse:

- Olha isso. Tá vendo só? Eu não queria ficar assim. Se estivesse queria que a vida me levasse. Fui convocado em 39 e passei por muitas, mas tô aqui ainda em forma.

E
lá vem o ônibus. Não era o meu, mas era o do Sr. Tive uma imensa vontade de pará-lo e perguntar qual seria o seu maior sonho. Pensei que ele poderia perder o ônibus, e acabei não perguntando. Acho que esta foi uma das maiores frustrações da minha vida.
Pouco depois o ônibus que eu esperava chegou. No caminho fique imaginando qual seria a resposta do Sr: ''ganhar na Mega Sena'', ''ter minha veia de volta',' ''ter mais cabelo e menos despesas'', ''arrumar uma mulher de 20''. E por ai vai.
Por vezes dei risada sozinho olhando o nada pela janela. Mas comecei a observar as pessoas nas ruas, e via nelas várias deficiências como a do homem do outro lado da parada. Via cegos, surdos, mudos, ou os três na mesma pessoa. Via pessoas sem cabeça, sem Sistema Circulatório, sem moral. Todos amputados.
Resolvi os imbróglios no banco e chispei para casa. Lá comecei a desenvolver o meu plano já arquitetado: arrumar as coisas e ir pescar.
Sai de casa por volta das 17h com destino não muito estabelecido, de inicio sabia que era a praia. E lá fiquei nos limões por um bom tempo. Vi a Lua nascendo bastante avermelhada, vi que não haviam pessoas na praia neste dia, vi um mar bastante calmo, maré secando e os 5 bagres que peguei – Estes dei a uma criança que havia me pedido dinheiro.
Pensei bastante nos momentos em que estava pescando. Pensei bastante naquele Sr e em todas as pessoas que vi pela janela do ônibus. Pensei em minha família – que naquele momento deveriam estar dando risada de alguma insanidade que vinha vó falara. Pensei nas coisas que me aconteceram nos últimos e nos novos tempos, principalmente nos últimos dias.

Algumas coisas percebi: que muitos ônibus passam em nossas vidas, e é sempre bom saber escolher em qual entrar e onde descer; que podemos perder algumas partes do corpo sem nem mesmo percebermos; que de vez em quando é elegante usar chapéu; que a Lua manda mensagens; que é preciso ter mais cuidado com bagres; que não se deve perder muito tempo em cálculos demasiado longos; que onde menos se espera pode-se encontrar algo que te faz dar mais um passo.

O dia de hoje, dentre essa tal data, em minha vida, foi um dos melhores sem dúvida. Desde as horas que não durmi até as horas que ainda não durmi.

Não cheguei a nenhuma conclusão concreta – como era de se esperar – mas quem sabe na próxima pescaria.

Até a próxima querido Diário. E espero que demore...

22 de dezembro de 2007

Um limão, e meio limão


Lá fico eu a olhar a linha. Vezes fixamente, por outras nem tanto. Não saberia dizer o ''porquê'' de estar ali, mas mesmo assim fico. Imagino que deva ser por causa da brisa que sopra em minh'alma e me faz flutuar por dentro. Ou seria por tentar, ali naquele momento, me sentir parte daquela imensidão? Penso que são as duas coisas: ter asas e ao mesmo tempo cair.
Eu, desde pequeno, sempre quando estou fazendo isto, fico cantarolando algo do tipo: ''um limão, e meio limão, dois limões, e meio limão...''. Isto, de fato, não saberia explicar.
Até o momento em que eu sinto a linha vibrar, até antes disto, não sei bem definir onde meus pensamentos se encontram. Vagueiam pelas ondas, ou são levados pelo vento, ou mesmo, estão ali e não os vi, de certo cego pela linha, ou pelo que viria depois que ela vibrasse.
Antes da linha vibrar fico livre. Ganho asas naquele momento. Momento único em minha vida. Mas tudo termina até que a linha vibre. Depois que ela vibra tudo se vai, e volto eu a fixar meus olhos na fim da linha. Depois que ele sai d'água, meu Mundo des'água. Mas é por ele que estou ali. Ou será por mim mesmo? Sinceramente não sei porque ainda pesco.

19 de dezembro de 2007

Do lado de dentro


Outro dia Dipsy estava usando uma camisa com esta frase; ''O mais incompreensível do mundo é que ele seja compreensível''. Dipsy percebeu que eu fiquei numa espécie de estado catatônico, e por um momento uma gosma - acho que era baba - escorria pelo canto da boca. A bendita frase me deixou assim.

- De quem é esta frase em sua camisa?
- De um coroa ai com um bigode sinistro.
- Hitler?
- Acho que não, mas ele é de lá daquelas bandas.

Fiquei calado por alguns segundos pensando.

- Quem te deu essa camisa?
- Minha vó.
- Dona Nóia comprou aonde?
- Só perguntando a ela...

Na mesma noite sonhei com aquela frase. Vi alguns sujeitos barbudos e outros com bigodes avantajados, todos juntos, como numa masturbação mental, dizendo: ''o mais incompreensível do mundo é que ele seja compreensível. o mais incompreensível do mundo é que ele seja compreensível'. Parecia aqueles filmes de Sessão da Tarde sobre zumbis: ''me dê sua alma''.
Pela manhã Dipsy ainda usava a mesma camisa. Quando estávamos à mesa, eu relembrava do sonho. Olhei para a margarina e disse.

- Me passa o compreensível.

Dipsy com seu humor de novela mexicana não perdoou.

- Só se eles entenderem...

Comi aquelas torradas como se mastigasse uma tonelada de teorias e explicação sobre o que é a realidade, e como ela se formula. A cada ensopada de margarina que eu dava os ''X's'', ''Y's'' e aqueles barbudos cruzavam a minha cabeça. Eu os vi dando lingua para mim. Fechava meus olhos e via um senhor de meia idade, bigodudo e descabelado, estava postado a frente de uma lousa com algo do tipo escrito: E = mc². Eu já me sentia com uma espécie de estresse pós-traumático.
Dipsy levantou e seguiu em direção a cozinha. Na mesma camisa, na parte de trás, estava escrito: ''veja pelo lado bom, com esquizofrenia você nunca está sozinho".

17 de dezembro de 2007

Depoimentos

Depoimento de Patrícia.

Gostaria muito de agradecer a vocês por terem me ajudado nesse momento tão difícil da minha vida. Foi muito difícil ficar limpa por tanto tempo. Nunca imaginei que conseguiria, mas hoje vejo que com vocês tudo é possível.
Eu comecei a usar por causa de umas amigas que me mostraram. Elas diziam: "mulher, isso é bom demais!" Comecei pelo básico, sabe? Quando me vi estava completamente viciada.
Confesso que a primeira vez que usei foi por causa do Maurício. Eu sabia que ele usava bastante, então, para conhecer melhor o que o gatinho do Maurício fazia, entrei de cabeça. No início parecia tudo maravilhoso, muitas cores, muitos coisas se mexendo, e aqueles bichinhos então! Muito fofo.
Meu pai reclamou tanto comigo, eu tola não percebi que ele estava certo. Ele sempre dizia: "filha, isso vai te fazer mal, tenha cuidado com essas coisas."
Uma vez aconteceu até um caso estranho. Encontrei minha mãe entre umas rodas dessas que freqüentava. Foi algo diferente, mas naquele momento percebi que não estava sozinha. Não sei se estar compartilhando das mesmas coisas com a minha mãe, e por ser a minha mãe, me trazia mais segurança. Acho que era isso. Minha mãe pediu para guardar segredo, foi o que fiz, e me arrependo disto também.
As coisas começaram a ficar complicadas quando meu pai me chamou para conversar e disse: "filha, você está vendo no que está se tornando? Você não faz mais nada do que fazia antigamente. Só quer saber dessa vidinha de ilusão. Eu sempre disse que isso acabaria te fazendo mal. Veja só seus olhos como estão vermelhos! Chega, vou acabar com isso!"
Foi neste dia que as coisas mudaram. Neste dia percebi quanto tempo da minha vida eu havia perdido. Mas hoje estou limpa! Uma semana já.
O ruim é essa fase de abstinência. Eu fico me tremendo às vezes, as mãos ficam suando e a mente não para de imaginar um monte de coisa. Dai eu me pergunto: "quantos scraps será que deixaram no meu Orkut?".

12 de dezembro de 2007

Perguntas sem respostas

"O homem pensa que ele é o único com passado. Meu pai gostava de dizer que eram coisas da vida, que não têm e nunca poderiam ter sentido. E se tinha algo de inteligente que sabia, pelo seu trabalho, era de nunca se render, continuar tentando manter o sentido das coisas, tentando entender as coisas que nunca poderiam ser entendidas. Suponho que encontrará sempre pessoas com diferentes explicações para suas respostas... pelo que as coisas são... Suas perguntas sempre serão as mesmas. E o mais importante, mesmo que não saibamos as respostas ainda sim devemos continuar fazendo as perguntas."

Pensamentos de Allie - Taken (serie de Steven Spielberg)





As pessoas buscam respostas diariamente. Perguntas que não podem ser respondidas, e quando são, mudam-se as perguntas, como num equilíbrio distante.

Por que o homem se deleita em procurar o desconhecido aos seus olhos?

Penso que essa busca seja o motor da evolução do homem como Homem. Entender o inatendível é ter a capacidade de criar e recriar condições para que as modificações na formação da sociedade possam se realizar.

Faço minhas as palavras do Prof. Artur Perrusi em uma postagem em seu Blog (ótima por sinal), onde a seguinte teoria é exposta de maneira compreensível: “Existe uma teoria que diz que, se um dia alguém descobrir exatamente para que serve Deus e por que está aqui, Ele desaparecerá instantaneamente e será substituído por algo ainda mais estranho e inexplicável”.

Onde está o limite do homem? Nas limitações da sua própria mente ilimitada? Ou na constante insatisfação do que parece ser real?

Perguntas difíceis de serem respondidas. Perguntas sem respostas...